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TATIANA LESKOVA: PRÊMIO POSITANO

setembro 22, 2017

Eliana Caminada
16 de setembro às 20:17 ·
Já não é difícil dimensionar o papel de Tatiana Leskova, D. Tania, na história do ballet no Brasil e do mundo internacional da Dança.
Na nossa vida, de bailarinos brasileiros, é tão grande essa contribuição que podemos afirmar que com ela aprendemos tudo: amar e respeitar o ballet acima de nossa própria vida pessoal. Nem todos conseguimos ou compreendemos, mas ela nos ensinou e vive esse amor na sua plenitude.
Imaginar o ballet clássico profissional no Brasil sem a presença de D. Tania seria como tentar imaginar os Estados Unidos sem Balanchine. Ela internacionalizou o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com os grandes coreógrafos e bailarinos que trouxe para trabalhar conosco, dotou o repertório da companhia com um acervo riquíssimo, de indiscutível qualidade universal, formou bailarinos que se destacaram no cenário do ballet no mundo todo. Graças a ela, um ciclo inteiro do Original Ballet Russe foi montado para o Theatro Municipal. Dançamos alguns ballets antes que os russos, de onde vieram a maior parte dos coreógrafos da lendária companhia, o fizessem.
No plano internacional, não fosse ela, a obra de Leonid Massine, de importância histórica, estaria perdida para as gerações que não o conheceram; não fosse ela, estaria na gaveta do esquecimento a obra de um gênio que já foi comparado a Salvatore Vigano, o conceptor do Choreodrama (drama coreográfico), coreógrafo a quem Beethoven dedicara sua composição Criaturas de Prometeu.
Professora, muitas vezes severa como é preciso, foi admirada por nós pela sua honestidade, capacidade de se renovar, se reinventar, se indignar com o que não reconhece como Arte, protestar, participar, se expor. Ela sempre tem um lado, jamais é neutra sobre coisa alguma.
O ballet foi premiado quando, através de Rudolf Nureyev, convidou-a a remontar Leonid Massine na Ópera de Paris e, por consequência, no mundo todo. Agora, concede-lhe o PRÊMIO POSITANO na sua 45ª edição, que nada mais é do que o reconhecimento do seu talento, de sua perseverança, de sua coragem e de seu imenso amor à vida.
Setembro de 2017

ESCOLA ESTADUAL DE DANÇA MARIA OLENEWA

setembro 22, 2017

O coquetel comemorativo dos 90 anos da Escola Estadual de Danças Maria Olenewa, que aconteceu ontem à tarde, propiciou momentos de muita alegria e emoção.

O encontro de professores, alunos, ex-alunos, de todas as gerações, ao lado funcionários, personalidades e companheiros dos corpos artísticos foi marcado pela felicidade dos reencontros.

No lindíssimo Salão Assirius do Theatro Municipal do Rio de Janeiro vivenciamos o sentimento do peso da tradição. Noventa anos não são 90 dias ou 90 meses. Quantas expressões de nossa cultura sobreviveram em nosso país por tanto tempo?

O ballet, como atividade, proporciona muitos fatos que ultrapassam a função de formar um bailarino. Se essa formação envolve uma escola como a Escola de Danças o ballet está preparando para a vida, está conduzindo os estudantes a enfrentar o mundo adulto com uma atitude de respeito e educação que deverá permanecer nas nossas relações humanas e profissionais para sempre.

Instituições como a Escola de Danças nunca mais saem da vida daqueles que por elas passaram. Juntos, parecemos todos adolescentes; individualmente, somos todos soldados disciplinados, pontuais, responsáveis. E sensíveis.

A homenagem a Lydia Costallat, nossa inesquecível diretora, foi linda e ninguém mereceu mais do que ela este reconhecimento. Os deuses da Dança fizeram com que Helio Bejani, atual diretor da Escola, um primeiro-bailarino, um bailarino oriundo da companhia para a qual a Escola foi criada, alguém ligado à Escola por vínculos artísticos, fosse o mentor desta demonstração de apreço.

Podemos afirmar sem medo de errar: Maria Olenewa fundou a Escola, Lydia a manteve viva. Quando fomos despejados, sem grandes ou pequenas explicações, pelo então presidente da Funterj Geraldo Matheus Torloni, do prédio que abrigava a Escola de Danças, a Escola de Canto Lírico e a Orquestra Juvenil, ela transmutou-se em heroína. Recusando-se a aceitar passivamente uma decisão tão burra quanto autoritária, lançou mão dos amigos da dança para manter a Escola de pé. Com a solidariedade de inúmeros estúdios de ballet particulares, designou cada turma para um lugar diferente e, percorrendo o Rio de Janeiro, da zona norte a zona sul, quase que diariamente, conseguiu coordenar as aulas e os exames, e para dar assistência a alunos, professores, pianistas e pais de alunos. Nos dias que lhe sobravam buscava um local que abrigasse a Escola. E encontrou. Foi difícil, no início, mas com a cumplicidade do seu Corpo Docente, Discente e alunos, a Escola foi introduzida em sua nova (um casarão velhíssimo) sede. Com sua luta sem esmorecimento obrigou as autoridades a reconhecer a importância de uma escola de formação de bailarinos com uma história única no Brasil.

Desde ontem, a presença de Lydia está devidamente registrada para que as novas gerações a reverenciem a cada aula, a cada dia, a cada ensaio.

E nós, eternos apaixonados pela antiga Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sentimo-nos envolvidos por uma grata sensação de felicidade, realização e sentimento de gratidão a Deus por ter colocado o ballet nas nossas vidas e a Escola no nosso caminho.

A resposta dos sensíveis

setembro 22, 2017

Eliana Caminada
22 de setembro de 2015 às 18:51 ·

A resposta dos sensíveis
Um absurdo a declaração escrita pela senhora **** Lima na revista Dança & cia. sobre dança x educação física e antigos profissionais artistas. Sim, porque admitindo a colocação dela, figuras como Maria Olenewa, Vaslav Veltchek, Eugênia Feodorova, Tatiana Leskova, Nina Verchinina, Maryla Gremo – será que ela já ouviu falar de algum desses nomes paradigmáticos? – cabem dentro de suas acusações.
Ora, onde eles estavam, onde estávamos todos enquanto a educação física se organizava? Dançando, é claro. Somos anárquicos, dionisíacos; somos artistas, temos dificuldade de tratar de Leis, regulamentações, burocracia, etc. Diante de um espetáculo, nos mobilizamos totalmente em função dele: uns tratam de viabilizar financeiramente o espetáculo, outros estão ensaiando, terceiros estão cuidando da produção, etc. Os que nada podem mas amam a arte estão na platéia. Os insensíveis estão vendo atletas em artistas. Que existe professor ‘picareta’ de dança? Quem duvida disso? E na Educação Física não tem? Se médicos têm problemas c/ a categoria – e como existem erros médicos no Brasil – que a categoria se organize para não ficar desmoralizada; já imaginaram se a OAB resolvesse fiscalizar a medicina em nome de qualquer tipo de tese insensata? Dança é Arte, matéria de Ciências Humanas e Sociais, e Educação Física é da área de Ciências Biomédicas: parecer do Conselho Estadual de Cultura do Rio (Edino Krieger, Nélida Piñon, Caique Botkai, Beth Carvalho, José Lewgoi, Arthur Moreira Lima e outros). Senhora **** Lima, mais respeito ao se referir publicamente a profissionais pioneiros, brilhantes, ícones da dança no Brasil, como é o caso dos que lideravam a dança há 50 anos. Se sua formação foi realizada com professores que jamais lhe ensinaram nada, se foi obrigada a comer uma banana (por que banana?) ao longo de um dia de ensaios, se só conheceu pessoas antiéticas, lamentamos muito; procurasse melhor orientação. Foi o que fizeram meus pais quando manifestei vontade de estudar ballet. Declarações desse tipo são muito graves: merecem processo ou suscitam deboche.
Eliana Caminada

Sobre Shéhèrazade e Mikhail Fokine

setembro 22, 2017


Eliana Caminada
20 de setembro de 2016 às 19:06 ·
Hoje fui assistir a um ensaio de palco de Shéhérazade e fiquei refletindo sobre a imensa dificuldade de dançar uma obra tão paradigmática dentro da história do ballet do século XX. Um ballet estilístico em que a grande dificuldade representa, não o treinamento técnico do bailarino de hoje, mas, ao contrário, expressar o que consideram simples e fácil.
O virtuosismo do século XXI não serve para nada diante da necessidade da sensualidade, da sinuosidade, dos cambrés e épaulements de cada elemento em cena. Esse é o momento de comer o remontador com os olhos e os ouvidos, de forma a conseguir expressar através do corpo uma época de busca, não apenas de passos novos, mas de um novo espírito, de movimentos inusuais, novos e complicados sim, para nós. É necessário tentar conhecer um momento extraordinário, em que o ballet rompia com seus modelos já consagrados e esgotados para sobreviver como uma arte maior, indicadora de novos caminhos, de novas concepções de criações e espetáculos.
Mikhail Fokine não foi tão somente um novo coreógrafo surgido do seio da grande arte russa da dança, com sólida formação acadêmica e bagagem artística. Ele foi um revolucionário, um farol que percebeu que um novo tempo havia chegado. Suas ideias sobre a dança (“… o ballet deve ter uma unidade completa de expressão, uma unidade composta da união harmoniosa dos três elementos – música, pintura e a arte plástica … a dança deve ser interpretativa, deve explicar o espírito e jamais degenerar em meros movimentos de ginástica …”) precederam até mesmo a ida de Isadora Duncan à Rússia, embora seja indiscutível que a liberdade de dança de Isadora lhe provocou imensa perplexidade.
As ideias de Fokine se realizariam plenamente nos Ballets Russes de Sergei Diaghilev. Com Diaghilev el entrou em contato com a intelectualidade francesa e essa erudição estaria sempre presente em sua obra.
Vou me permitir, aqui, reproduzir os cinco pontos de Fokine publicou em Londres em 1914 e que o tornaram o “pai da moderna concepção de espetáculos cênicos”. São eles:
1. Conceber, para cada coreografia, movimentos que correspondam ao tema, período e música ao invés de apenas formular combinações de passos tradicionais.
2. Gestos e mímicas só têm sentido no ballet moderno, quando a serviço da ação dramática.
3. O corpo do bailarino deve ter expressividade da cabeça aos pés, sem pontos considerados mortos. No ballet moderno, os gestos de dança clássica somente se justificam quando o estilo o requer.
4. O conjunto não é meramente ornamental; a expressão corporal é necessária tanto nos solistas quanto no conjunto quanto na totalidade dos participantes que se movimentam em cada cena.
5. A dança deve permanecer em condição de igualdade com os demais fatores do ballet. Estes não devem mais se impor à dança nem deve a dança ser independente. Música de “ballet” não mais existe mas simplesmente música, boa música. Eliminem-se “tutus”, sapatilhas e malhas cor de rosa sem sentido cênico ligado à obra. Tudo deve ser inventado a cada instante, ainda que as bases da invenção estejam estabelecidas numa tradição centenária.