Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Canal de Dança

março 9, 2020

Convido-os a conhecer meu canal de Dança no You Tube. São vídeos raros, em geral, mas importantes pelo conteúdo histórico do que pela imagem e som. Obrigada.

https://www.youtube.com/channel/UCcToG663GFlVm3TaV9LK62Q?disable_polymer=true

Para meu marido Eric

maio 21, 2019

Meu bem, está fazendo um ano que você se foi. É duro, mas estou em paz. Tenho, de você, as lembranças mais lindas, tenho nosso filho e nossos pequerruchos Luiza e Lucas. A cada dia, em vários momentos, me flagro conversando com você. 
Como você me ensinou a viver. Como foi generoso, educado. Como teve caráter, bondade, seriedade quando era preciso. Como foi bom para minha família inteira; como me preparou para enfrentar a vida sem você. 
Eric, você morreu como viveu, amando o belo e, sobretudo, amando o próximo, o requintado e o muito simples; em relação a tudo: gente, música, arte, lugar… Quanto mais envelhecia, mais humano se tornava. Como você respeitou a dignidade de gente pobre, como distribuiu amor e como recebeu amor. 
Meu bem, você foi uma bênção para os que conviveram com você, uma bênção na minha vida, meu amor, meu companheiro, meu professor de tudo, um misto de marido, amante e pai. 
E uma coisa que nunca falei explicitamente: como você teve talento, como a arte gostava de você. Teve talento para tudo: para dançar, embora nunca tivesse conseguido ter técnica, mas a dança sabia, conhecia o seu talento como professor, como remontador, ensaiador, até como o coreógrafo que você não se permitiu ser; com sua auto-crítica aguda dizia: não tenho cultura suficiente para ser um coreógrafo, eu faço coreografia, é diferente, mas não sou um criador; como você tinha talento para desenhar, para criar figurinos; como tinha talento para piano, para música, com seu ouvido tão apurado, que Roberto herdou e nossos netos, também. 
Meu Eric, está é, sim, minha declaração de amor a você, onde quer que você esteja. Te amo!

Eric Valdo

ELEONORA OLIOSI – UMA MESTRA

maio 8, 2019

Eleonora Oliosi – Uma Mestra
Um magnífico e raro final de semana para a dança, especialmente, o ballet clássico. 
Assistir Eleonora Oliosi dando uma aula é entender porque ela dançou como dançou. Ela representa a arte em toda a sua capacidade de dar um peteleco na lógica dos cantados e decantados pré-requisitos para o ballet. O que Eleonora tinha era talento e vocação. Por isso o ballet a escolheu. 
Ouvindo suas correções me vi, comovida, retornando ao Theatro no qual dancei. Quem nunca dançou num teatro de grande porte, lírico, não sabe o que é. Nenhum aparelho substituirá uma orquestra; nenhum gravador substituirá um pianista de aula ou ensaiador. A tecnologia tem sua utilidade, não resta dúvida, mas está muito longe de substituir o ser humano, suas falhas, seus grandes momentos, a junção da música e da dança numa única respiração. Aparelhos não respiram. 
Não, Eleonora não estava ali inventando a roda. A roda já foi inventada. Nada de pé flex, frappé assim ou assado, mimimi de aula de ballet de quem espera um milagre que o faça dançar sem grande esforço. Ela falava de dança, de preparações, de musicalidade, de respiração, de ligação de movimentos, de expressão, braços, cabeças. Ela falou de felicidade por estar dançando, falou do tutu; ela falou de amor. E trouxe consigo o mundo do teatro de grande porte, do público, da platéia às galerias, da projeção do bailarino, da exatidão das terminações, mesmo num simples exercício da barra, da unidade de uma companhia que começa a ser trabalhada desde a aula. Ela trouxe o maestro para a aula, dirigia-se a ele como se ali ele estivesse. A pianista acompanhadora – como tudo no ballet, uma especialização – era o maestro; estejamos atentos a ele, dirijamos-nos a ele depois do “espetáculo”. 
Esperamos que os que tiveram a chance, não de executar suas sequências, isso pouco importa, mas de ouvir o que ela tinha a dizer, lembrem de suas palavras e revejam sua imagem mostrando. O que grandes mestres mostram não tem nada a ver com perfeição técnica, físico apurado, perna na cabeça, giros e mais giros. 
Eles trazem VIVÊNCIA, BAGAGEM, COISAS QUE NÃO SE APRENDE EM LIVROS, MUITOS MENOS EM CURSOS DE GRADUAÇÃO. 
Eleonora, muito querida amiga, obrigada por poder ver e aprender com você. Receba meu amor, amizade e eterna admiração.

Eleonora Oliosi

Por um momento de amor

março 13, 2019

Amigos de sempre, tenho tentado me afastar de postagens eminentemente políticas. Procuro colocar apenas o que acho que será considerado positivo por todos, contra o STF inteiro e, claro, sobre dança, que é minha paixão, minha profissão e minha vida.
Mas hoje não consegui me furtar de postar uma pergunta: 
Por que todas as religiões devem ser respeitadas, menos o cristianismo? 
Gente, fui educada no catolicismo bem carola por influência de meus avós, mas meus pais eram espíritas – e eu diria que mesmo meus avó tinham uma atração pelo espiritismo. Tínhamos e tenho amigos judeus que amo. Aliás, nunca entrou em questão se eram ou não judeus ou muçulmanos ou fosse o que fosse. Messody Baruel e família passavam o Natal em nossa casa e papai não perdia o dia de partilhar os quitutes do final do yom kippur. 
Com o tempo, frequentei a Igreja Messiânica, fui várias vezes ao Templo Tupyara – um oásis de paz, limpeza, bondade, missão e amor -, assisti uma vez ao Candomblé – muito longo e não gosto das comidas -, ia à casa de uma amiga espírita que só me fez o bem. Finalmente, voltei ao catolicismo. Amo a liturgia, a beleza das Igrejas, dos trajes, da sensação de paz – não gosto de Missas modernas, detesto -, da música e do canto. Já dancei na Igreja da Ressurreição, em Copacabana; foi lindo. 
Mas, sobretudo, acho que a mensagem cristã é belíssima, é universal, e que dera que a humanidade tivesse se guiado por ela. Independentemente de frequentar ou não a Igreja ou de pertencer a outra religião. “Amai ao próximo como a ti mesmo.” Certamente, neste carnaval da total falta de respeito às crenças e sentimentos do próximo, tal não aconteceu. Sou carioca, amo carnaval, mas o que vi me envergonha, me indigna e me afronta. 
Concluo com as palavras de Gandhi (ele se auto-proclamava hindu, muçulmano, cristão, judeu e budista, pois acreditava que todas as religiões levavam a Deus) 
“”Se um único homem alcançar a mais elevada qualidade de amor, isto será suficiente para neutralizar o ódio de milhões.” Mahatma Gandhi.”

Um Ano Novo

janeiro 2, 2019

Amanhã se encerra um longo ciclo em minha vida. Pela primeira vez acordei de meus sonhos esquerdistas para pensar no quanto humanos foram os meus amores, os que me protegeram e me amaram incondicionalmente. 
Sim, eles foram especiais, tão abertos para gostar, para receber, para se solidarizar, para oferecer a casa e a amizade, para não julgar; e para tentar agir com justiça sem propagar ideologias ou dogmas políticos. 
O ano que se inicia é o primeiro em que não tenho mais nenhuma proteção, nenhum mimo, ninguém a dar ou receber satisfação. Daqui, até o último dia, eu é que protegerei meu filho e meus netos. 
Todos viraram a esquina: vovô, papai, vovó, tivó, Dadá, mamãe, meus cachorros e Eric. Mas sinto que Deus e a vida foram me preparando para enfrentar tudo; sozinha. E me sinto em paz. Nem sempre estou feliz, às vezes sinto uma tristeza enorme, mas não sou triste; muito menos infeliz. Seria muito injusto ser infeliz depois de tanto que a vida me deu.
De todos os que me foram faltando nenhuma ausência é tão presente quanto a do Eric. Simplesmente, insubstituível. Adorava sua companhia, sua presença, sua melancolia, sua aguda sensibilidade artística e humana. Eu amava nossas conversas sobre tantas coisas que gostávamos juntos. E foram tantas, mesmo, que posso dizer que não sei onde terminava Eric e começava eu. 
Digo isto com a convicção de que vivi uma bênção, nem sempre oferecida a todos. As pessoas falam tanto em independência, em vida própria, problematizam tudo, conceituam tudo. Será que sabem viver? Será que se dão conta de que é maravilhoso misturar-se com o outro, com seu amor, com o pai de seu filho, e formar com ele, quem sabe, uma terceira pessoa? Será que sabem que dar satisfação é ótimo, que dizer que vai sair ou a que horas vai voltar é confortador, que aguardar a volta de uma viagem é viver intensamente? 
Cá estou eu falando coisas tão pessoais. Será que devia? 
A todos os meus amigos sinceros desejo que amem, criem vínculos sólidos, tornem o tempo menos líquido, mais espesso e mais durável. 
Felicidades a todos!

2018/2019

Message d’une maître de danse brésilienne – traduction Desirée Thompson

dezembro 26, 2018

E

Magnifique message d’une maître de danse brésilienne. 
❤️

« 
Amis et collègues, je tiens à vous rappeler que mes messages ne reflètent que mon opinion et ne sont publiés que sur ma page personnelle. Ils sont publics parce que je n’ai rien à cacher à personne.
Dans l’épilogue de son livre extraordinaire “Les anges d’Apollo – Une histoire de ballet”, Jennifer Homans met le doigt (et l’âme) au même endroit:
“… Pour que le ballet classique reprenne sa place d’art fondamental, il faudrait plus que des ressources et des talents (le” prochain génie “). L’honneur, le décorum, la civilité et le bon goût devraient également revenir. Nous devrons ré-admirer le ballet, non seulement en tant que spectacle sportif impressionnant, mais également en tant qu’ensemble de principes éthiques … “
Beaucoup disent aimer le ballet, mais ils ne le respectent pas quand:
ils ne désirent que le glamour et le succès;
ils retournent au répertoire classique en déformant leurs personnages, en déplaçant les danseurs pseudo-techniques et en les exposant à des difficultés en dehors du style et de la musique, au détriment du ballet et de l’intrigue d’autres personnages, en partie parce qu’ils ne sont pas conscients de l’intrigue profonde de travail, en partie à la recherche d’applaudissements gratuits;

croire que les vidéos remplacent l’expérience vécue dans le travail de réassemblage d’une œuvre de répertoire; vidéos désorientées et trompeuses; les vidéos ne sont utiles que pour ceux qui ont besoin de prendre de petits doutes, de ne pas remplacer un rappel;
quand ils pensent que l’ensemble d’un travail de répertoire n’a été formidable que parce qu’ils l’ont tous fait ensemble, alors que l’essentiel de l’œuvre, son style, sa structure sont aussi éloignés que l’athlète est éloigné de l’artiste;
quand ils substituent de vraies émotions à des clichés qui plaisent au public;
quand ils n’entendent personne, ils ne lisent rien et ne savent rien du bureau qu’ils disent aimer;
quand ils mettent la production au-dessus du sens primordial du spectacle de ballet: la danse.

Eliana Caminada

Rio de Janeiro, 26/12/2018

Sobre Vaganova – Do livro “Os anjos de Apolo – Uma história do ballet”

dezembro 13, 2018

Sobre Vaganova. Do livro “Os anjos de Apolo” de Jennifer Homans.
“…Antes de mais, era uma ciência e (nas palavras de um bailarino) “tecnologia” do ballet. Vaganova tinha uma mente extremamente analítica…Nas suas lições, todos os aspectos de um passo eram desmontados, examinados e depois montados de novo e descritos. A coordenação era fundamental, e Vaganova inventou um método de treino em que a cabeça, mãos, braços e olhos, todos se movimentavam em sincronia com as pernas e os pés. Não adiantava praticar passos complicados na barra com o braço pendurado e sem qualquer expressão ao lado…: sem o braço (cabeça, olhos) o passo atrasava-se. Todas as partes do corpo tinham de funcionar ao mesmo tempo e em estrita harmonia, acompanhando fluidamente a espinha dorsal. Assim, a barra de Vaganova nunca era um conjunto de escalas e exercícios isolados; era uma dança completa – não floreada ou ornamentada, mas simples e precisa…: porquê esperar para pôr todo o corpo em movimento coordenado? Vaganova ensinava os seus alunos a aperfeiçoar os passos enquanto dançavam, eliminando assim a tradicional distinção entre técnica e arte.”
“O resultado era impressionante: Vaganova afinava a coordenação física de forma que até os passos mais difíceis parecessem fáceis, graciosos e sobretudo naturais – não divorciados da vida, mas parte dela…A ideia não era “enxertar” o significado num passo: isso teria sido demasiado rude e ornamentado. Pelo contrário, e como Stanislavsky no teatro, ela pedia aos bailarinos para encontrar ligações profundas e convincentes entre o movimento e a emoção. Não havia passos neutros: todos os movimentos tinham de ser dotados de sentimento…”

SOBRE UM ESPETÁCULO DO CORPO DE BAILE DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

outubro 9, 2017

Eliana Caminada
9 de outubro de 2015 · Rio de Janeiro ·
Ainda sobre a noite de ontem. Atenção, não sou a dona de nenhuma verdade. Isso é apenas minha opinião, nada mais que isso. Não é uma crítica.
Antes de tudo, parabéns à companhia, ao Theatro, ao ballet do Brasil, por ter na direção da principal casa de espetáculos do Brasil Ana Botafogo e Cecília Kerche. No meio de tanta bandalheira, é um bálsamo na nossa alma.
Ages of Inoccence é um bonito ballet neoclassico. Não é uma grande criação, mas usa muito bem a companhia, e viu desempenhos excelentes do conjunto e de vários solistas. Quando começou (e mesmo lá pelo meio) lembrei-me de Dark Elegies de Antony Tudor, essa sim, uma criação, uma obra-prima. Talvez as reverences em filas, as movimentações dos casais de saias compridas. Só que Dark Elegies é profundamente doloroso e Ages of Inoccense é solar.
A 7a Sinfonia de Beethoven, com sua partitura excepcionalmente bela, é um grande ballet. Fiquei imaginando o prazer da orquestra, que tantas vezes precisa se submeter a tocar Minkus e outros menos votados, num espetáculo como o de ontem. E Uwe Sholz é um baita coreógrafo, inspirado e absurdamente musical. Puxa, como gostaria de ter tido a chance de dançar um corpo de baile como aquele. É um desafio, uma criação. Dificilimo, foi um desafio que a companhia, mais uma vez, milagrosamente, venceu.
Quando vejo o Corpo de Baile dançando sempre me pergunto, que componente subjetivo permite que, com tão poucos espetáculos, a companhia se apresente bem e consiga renovar seus elementos. Tendo a atribuir à tradição que a própria Casa guarda. Uma memória, sei lá.
O que vou falar é delicado para mim, mas convivo com críticas sem maiiores problemas. Bailarinos como Karen Mesquita, Moacyr Emannoel, Cícero Gomes já merecem o título de primeiros-bailarinos. O público já os reconhece e eles se destacam no que interpretam. E são sucessivas temporadas de qualidade indiscutível. Na minha opinião, existe um momento em que essa promoção, se não é conferida, começa a pesar na carreira do bailarino. Se se for esperar o ápice de um artista para dar-lhe reconhecimento, se impedirá, por questões psicológicas, o desabrochar total desse bailarino. Passei por isso, não sou uma pessoa falando do que nunca viveu.
Não quero esquecer de parabenizar Deborah e Raquel Ribeiro, Priscila Mota, Rodrigo Negri, Mônica Barbosa, entre outros que, certamente, estou omitindo sem querer, pela honestidade com que encaram suas carreiras. Estão em todas as temporadas e sempre se apresentam com suas melhores figuras, sempre empenhados e no melhor de suas possibilidades técnicas. Entre outros. E, que lindo ver Chico Timbó dançando, apaixonado pela dança.
No mais, é muito bom sair do Theatro com a sensação de que a companhia sobrevive, e com brilho aos maus administradores, à falta de incentivo político (refiro-me sim, à ausência de autoridades nas temporadas), ao desprezo da mídia, à falta de propaganda. E, pergunta que não cala: Se a casa não está nem meio cheia, por que ficar guardando os ingressos que poderiam, ou melhor, deveriam, ser distribuídos aos seus artistas e funcionários?

TATIANA LESKOVA: PRÊMIO POSITANO

setembro 22, 2017

Eliana Caminada
16 de setembro às 20:17 ·
Já não é difícil dimensionar o papel de Tatiana Leskova, D. Tania, na história do ballet no Brasil e do mundo internacional da Dança.
Na nossa vida, de bailarinos brasileiros, é tão grande essa contribuição que podemos afirmar que com ela aprendemos tudo: amar e respeitar o ballet acima de nossa própria vida pessoal. Nem todos conseguimos ou compreendemos, mas ela nos ensinou e vive esse amor na sua plenitude.
Imaginar o ballet clássico profissional no Brasil sem a presença de D. Tania seria como tentar imaginar os Estados Unidos sem Balanchine. Ela internacionalizou o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com os grandes coreógrafos e bailarinos que trouxe para trabalhar conosco, dotou o repertório da companhia com um acervo riquíssimo, de indiscutível qualidade universal, formou bailarinos que se destacaram no cenário do ballet no mundo todo. Graças a ela, um ciclo inteiro do Original Ballet Russe foi montado para o Theatro Municipal. Dançamos alguns ballets antes que os russos, de onde vieram a maior parte dos coreógrafos da lendária companhia, o fizessem.
No plano internacional, não fosse ela, a obra de Leonid Massine, de importância histórica, estaria perdida para as gerações que não o conheceram; não fosse ela, estaria na gaveta do esquecimento a obra de um gênio que já foi comparado a Salvatore Vigano, o conceptor do Choreodrama (drama coreográfico), coreógrafo a quem Beethoven dedicara sua composição Criaturas de Prometeu.
Professora, muitas vezes severa como é preciso, foi admirada por nós pela sua honestidade, capacidade de se renovar, se reinventar, se indignar com o que não reconhece como Arte, protestar, participar, se expor. Ela sempre tem um lado, jamais é neutra sobre coisa alguma.
O ballet foi premiado quando, através de Rudolf Nureyev, convidou-a a remontar Leonid Massine na Ópera de Paris e, por consequência, no mundo todo. Agora, concede-lhe o PRÊMIO POSITANO na sua 45ª edição, que nada mais é do que o reconhecimento do seu talento, de sua perseverança, de sua coragem e de seu imenso amor à vida.
Setembro de 2017

ESCOLA ESTADUAL DE DANÇA MARIA OLENEWA

setembro 22, 2017

O coquetel comemorativo dos 90 anos da Escola Estadual de Danças Maria Olenewa, que aconteceu ontem à tarde, propiciou momentos de muita alegria e emoção.

O encontro de professores, alunos, ex-alunos, de todas as gerações, ao lado funcionários, personalidades e companheiros dos corpos artísticos foi marcado pela felicidade dos reencontros.

No lindíssimo Salão Assirius do Theatro Municipal do Rio de Janeiro vivenciamos o sentimento do peso da tradição. Noventa anos não são 90 dias ou 90 meses. Quantas expressões de nossa cultura sobreviveram em nosso país por tanto tempo?

O ballet, como atividade, proporciona muitos fatos que ultrapassam a função de formar um bailarino. Se essa formação envolve uma escola como a Escola de Danças o ballet está preparando para a vida, está conduzindo os estudantes a enfrentar o mundo adulto com uma atitude de respeito e educação que deverá permanecer nas nossas relações humanas e profissionais para sempre.

Instituições como a Escola de Danças nunca mais saem da vida daqueles que por elas passaram. Juntos, parecemos todos adolescentes; individualmente, somos todos soldados disciplinados, pontuais, responsáveis. E sensíveis.

A homenagem a Lydia Costallat, nossa inesquecível diretora, foi linda e ninguém mereceu mais do que ela este reconhecimento. Os deuses da Dança fizeram com que Helio Bejani, atual diretor da Escola, um primeiro-bailarino, um bailarino oriundo da companhia para a qual a Escola foi criada, alguém ligado à Escola por vínculos artísticos, fosse o mentor desta demonstração de apreço.

Podemos afirmar sem medo de errar: Maria Olenewa fundou a Escola, Lydia a manteve viva. Quando fomos despejados, sem grandes ou pequenas explicações, pelo então presidente da Funterj Geraldo Matheus Torloni, do prédio que abrigava a Escola de Danças, a Escola de Canto Lírico e a Orquestra Juvenil, ela transmutou-se em heroína. Recusando-se a aceitar passivamente uma decisão tão burra quanto autoritária, lançou mão dos amigos da dança para manter a Escola de pé. Com a solidariedade de inúmeros estúdios de ballet particulares, designou cada turma para um lugar diferente e, percorrendo o Rio de Janeiro, da zona norte a zona sul, quase que diariamente, conseguiu coordenar as aulas e os exames, e para dar assistência a alunos, professores, pianistas e pais de alunos. Nos dias que lhe sobravam buscava um local que abrigasse a Escola. E encontrou. Foi difícil, no início, mas com a cumplicidade do seu Corpo Docente, Discente e alunos, a Escola foi introduzida em sua nova (um casarão velhíssimo) sede. Com sua luta sem esmorecimento obrigou as autoridades a reconhecer a importância de uma escola de formação de bailarinos com uma história única no Brasil.

Desde ontem, a presença de Lydia está devidamente registrada para que as novas gerações a reverenciem a cada aula, a cada dia, a cada ensaio.

E nós, eternos apaixonados pela antiga Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sentimo-nos envolvidos por uma grata sensação de felicidade, realização e sentimento de gratidão a Deus por ter colocado o ballet nas nossas vidas e a Escola no nosso caminho.